quinta-feira, 15 de julho de 2010

Canção da Falsa Tartaruga


"Cante a 'Sopa de Tartaruga' para ela, certo companheira? A Tartaruga Falsa soluçou profundamente, e começou a cantar, numa voz entremeada por soluços:

'Que bela Sopa, suculenta e trigueira,
Espera por nós na quente sopeira!
Quem por ela não suspira, não diz opa?
Sopa da noite, que bela Sopa!
Sopa da noite, que bela Sopa!
Ooooó... Bela Sooo... paa!
Ooooó... Bela Sooo... paa!
Sooo... paa da nooo... iii... teee,
Bela, bela Sopa!
Que bela Sopa! Quem quer saber de pastel,
Assado ou outro pitéu?
Uma sopinha fumegando no prato,
Não é de se tirar o chapéu?
Ooooó... Bela Sooo... paa!
Ooooó... Bela Sooo... paa!
Ooooó BEEELA SOOPA!

'O refrão de novo!' gritou o Grifo, e a Tartaruga Falsa estava começando a repeti-lo quando se ouviu um brado à distância: 'O julgamento está começando!'.

'Vamos!' gritou o Grifo, e tomando Alice pela mão, saiu correndo, sem esperar pelo fim da canção.

'Que julgamento é esse?' perguntou Alice, ofegante, enquanto corria; mas o Grifo respondeu apenas 'Vamos!' e correu ainda mais depressa, enquanto, cada vez mais tenuemente, carregadas pela brisa que os seguia, lhes chegavam as palavras melancólicas:

Sooo... paa da nooo... iii... teee,
Bela, bela Sopa!
"


(retirado de "Aventuras de Alice no País das Maravilhas", de Lewis Carrol, tradução de Maria Luiza X. de A. Borges)

sábado, 10 de julho de 2010

título preto e branco de um post preto e branco.

Cômodo preto e branco. Luz preto e branca. Menina preto e branca.
Voz em off: Me deixa fazer parte.

Menina preto e branco faz que não com a cabeça preto e branca. Aperta o bolso preto e branco da camisa preto e branca.

Cômodo:
Deixa fazer parte.
Luz: Deixa fazer parte.
Bolso: Deixa fazer parte.
Camisa: Deixa fazer parte.

Parede preto e branca. Guarda-roupa preto e branco. Cama preto e branca. Lençóis preto e brancos. Janela preto e branca com cortina preto e branca. Sapo de pelúcia preto e branco. Menina preto e branca chora lágrimas preto e brancas enquanto ri transtornada risadas preto e brancas.

Sapo:
Deixa fazer parte.
Parede: Deixa fazer parte.
Guarda-roupa: Deixa fazer parte.
Cama: Deixa fazer parte.
Janela: Deixa fazer parte.
Lençóis: Deixa fazer parte.
Cortina: Deixa fazer parte.
Lágrimas: Deixa fazer parte.
Risadas: Deixa fazer parte.

Menina preto e branca liga som preto e branco, dele saem notas preto e brancas em pautas preto e brancas. Soa o som preto e branco numa melodia preto e branca.

Som: Deixa fazer parte.
Notas: Deixa fazer parte.
Pautas: Deixa fazer parte.
Melodia: Deixa fazer parte.

Menina preto e branca desiste e desliga o som preto e branco, então abre a janela preto e branca. Borboletas preto e brancas e pássaros preto e brancos entram cada qual carregando uma ponta preto e branca de um pano preto e branco que carrega bolhas de tinta preto e brancas.

Janela:
Deixa fazer parte.
Borboletas: Deixa fazer parte.
Pássaros: Deixa fazer parte.
Bolhas: Deixa fazer parte.

Menina preto e branca relutante faz que sim com a cabeça preto e branca, pega no bolso preto e branco uma chave preto e branca: abre um baú preto e branco - que estava no guarda-roupa preto e branco - de onde tira outra chave preto e branca. Destranca a própria boca preto e branca e vomita... Vomita colorido.

O mundo então se cala.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

frase roubada.

da pedagogia do teatro. da menina de olhos estalados. da criança/adulta de cachos dourados:

"Toda certeza absoluta pode ser simples gravidez psicológica" (Morin)

sábado, 3 de julho de 2010

Baile do Príncipe


Mais um vídeo da minissérie 'Hoje é dia de Maria'. Nesse trecho passa a cena do 'Baile do Príncipe' (parodia da Cinderela), mas chamo atenção para os bonecos: de até 3 metros de altura, foram feitos em papel e telas metálicas remetendo à silhuetas de insetos. O Príncipe não tem rosto, e como os demais bonecos da 'corte' também não tem cor.

terça-feira, 29 de junho de 2010

diálogo de reis III

- Quanto tempo.
- Pois é.
- Não está com saudade?
- Acho que sim.
- Acha?
- É...
- (silêncio)
- Você está diferente.
- Sabe o que é?
- Hum?
- Tem uma coisa coçando aqui.
- Aqui onde?
- No meu pescoço.
- Quer que eu olhe?
- Acho que sei o que é.
- O quê?
- Um beijo.
- (silêncio)
- Tira ele pra mim?
- Agora?
- É.
- E depois?
- Depois ele reaparece, e você tira de novo.
- E depois?
- De novo.
- E quando acaba?
- Não acaba. Aí onde quero chegar.
- Ah. Parece bom.
- Enquanto isso, que tal um filme?
- Há! Você está me cantando!
- (silêncio)
- Tudo bem, gosto disso.
- (silêncio)
- Faz o seguinte, a gente se ama.
- Amemos, então.









"Tu te tornas eternamente responsável
por aquilo que cativas"

quinta-feira, 24 de junho de 2010

diálogo de reis II

- Sonhou?
- Sim e você?
- Sonhei...
- E...?
- (silêncio)
- Como foi?
- Na verdade não sei, não lembro.
- Ah... então era mentira?
- Claro que não.
- Melhor.
- (silêncio)
- O que temos pra hoje?
- Só o estresse cotidiano, nada mais.
- Ah.
- Pois é.
- E se a gente trocasse ele por batata frita?
- Com catchup?
- Se você preferir.
- É. Parece bom.
- Agora que tal um vôo?
- Agora?
- É.
- E depois?
- Depois também.
- E depois?
- Também.
- E quando acaba?
- Não acaba. Aí onde quero chegar.
- Acho que já vi isso antes.
- Posso ficar aqui um pouco? Abraçada em você?
- Tudo bem, eu espero.
- E se eu não soltar mais?
- (silêncio)
- Faz o seguinte, a gente avoa assim.
- Avoemos, então.









"Se tu vens, por exemplo, às 4 da tarde,
desde às 3 eu começarei a ser feliz."

segunda-feira, 21 de junho de 2010

diálogo de reis I

- Quero você aqui comigo.
- Aqui onde?
- No meu peito.
- Agora?
- É.
- E depois?
- Depois também.
- E depois?
- Também.
- E quando acaba?
- Não acaba. Aí onde quero chegar.
- Ah. Parece bom.
- A gente pode tomar café juntos. O que acha?
- Acho que prefiro suco.
- Tudo bem. A gente pode trocar de vida(s).
- Como?
- Trocando, ué.
- (silêncio)
- E dançar uma valsa venuniana zuliar.
- Isso não existe.
- A gente inventa.
- (silêncio)
- Só quero você aqui comigo, ok?
- Ok. Mas já tenho que ir embora.
- Ah, entendo. Então até.
- Mas ei.
- Sim?
- Vou me lembrar de você.
- Vai?
- Faz o seguinte, a gente se sonha.
- Sonhemos, então.








"Serás para mim único no mundo
e serei para ti única no mundo"

para Marília,

'qualquer coisa mesmo. Só pra atualizar.'


saudade!

sábado, 12 de junho de 2010

à La belle

Donos dos próprios sonhos, riem soltos.
Enrolados na própria história,
na própria dúvida,
no próprio medo, sorriso e
brilho.
Sapequice escondida no beijo de
um domingo azul.
Intrínsecos. Múltiplos. Vários.
Um.
Redondamente apaixonados.
Crianças. Adultos. Poetas que viriam a ser.
Recheados com licor de cereja
e creme de chantilly.
Inventores dos próprios moinhos, choram soltos.
Divididos em corda-bamba,
ora no céu, ora no chão.
Misturados de poesia, verso e prosa.
Recém-morados, casados,
bebuns.

Aos dourados cachos de Jour: Sim!
Vamos acreditar!

______________
Observações do dia que já não me lembro qual é: parábola da semeadura (você colhe o que planta), efeito cascata/borboleta (você vive o que escolhe/você colhe o que planta), ansiedade do querer fazer (engessamento do cérebro).

quinta-feira, 3 de junho de 2010