domingo, 28 de novembro de 2010

segunda falsa ode à Ele.

Pelo bem que cercado de amor, cerca o amor de bens. Pelo tempo que me foi generoso. Pelos dias que me foram calorosos. Pelos abraços. Pelos carinhos. Pelas noites. Pelos risos. Por ser maior, e ser menor. Por ser imenso... Pela sinceridade. Pela amizade que um dia cultivei. Pela oferenda. Pela troca. Por ser humano. Por ser da trova. Do trevo, da chuva de anis. Pelo verde, pelo amor, por amar, com amor... obrigada.




Porque amor pra mim não acaba, transforma.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Calo-me.

Detesto a fúria e os furiosos.
A própria raiva me enraivece.

Disse Paulo:
"Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sob a vossa ira" (Ef. 4:26)

sábado, 30 de outubro de 2010

Quantos lugares ao mesmo tempo?

Penso cada vez mais longe.
Vejo cada vez mais longe.
Toco cada vez mais longe.
Saboreio cada vez mais longe.
Respiro cada vez mais longe.
Cheiro cada vez mais longe.
Ouço cada vez mais longe.

Sinto cada vez mais.




É, a água levou.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Uma história marrom-bombom.

Era uma vez
um menino amarelo
que comeu um cogumelo azul
e desde então
tudo aquilo que ele encostou
ficou verde fluorescente.

Era uma vez
uma menina roxa
que comeu uma flor preta
e desde então
tudo aquilo que ela encostou
ficou laranja metálico.

Em algum 'era uma vez'
o menino amarelo do primeiro parágrafo
esbarrou na menina roxa do segundo
e desde então
tudo ficou rosa bebê.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Ela diz por mim.

Sinal Fechado - Chico Buarque

- Olá, como vai?
- Eu vou indo, e você tudo bem?
- Tudo bem, eu vou indo, correndo, pegar meu lugar no futuro, e você?
- Tudo bem, eu vou indo em busca de um sono tranquilo, quem sabe..
- Quanto tempo!
- Pois é, quanto tempo...
- Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios,
- Qual, não tem de quê. Eu também só ando a cem.
- Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí.
- Pra semana prometo talvez nos vejamos, quem sabe...
- Quanto tempo!
- Pois é, quanto tempo...
- Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas..
- Eu também tenho algo a dizer, mas me foge a lembrança..
- Por favor telefone eu preciso beber alguma coisa rapidamente.
- Pra semana,
- O sinal...
- Eu procuro você.
-
Vai abrir, vai abrir..
-
Prometo não esqueço..
-
Por favor não esqueça, não esqueça..
- Adeus.
- Adeus.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Um carinho, pra flô-amarela.

Já pensei em sete verso
sete fita colorida
estrelas, sete, de vida
sete nuvem de algodão
Pra módi mandá pra minina
sete flô de laranjeira
e de manhã a brisa primeira
que é pra aquietá o coração

Ser ela e menina-flô
ser mar e enchente na vida
ser sorriso e brilha que gira
ser jeitinho de chegá com amô
.

domingo, 8 de agosto de 2010

Borra e Onde as luzes tocam o chão.

Os desenhos fitados de azul e vermelho agora giram. Rodopiam freneticamente. À velocidade da luz. As cores se misturam virando borrões. As linhas se misturam virando nós. Os limites se misturam virando nada. Confusão. Embaraço. Mancha - como aquela da blusa branca preferida que nunca mais quis sair (pouco me importa). Poesia concreta em pintura realista. Vira voz. Vira som. Mas não harmonia. Abstracionismo geométrico sem retas, sem abstração e sem geometria. Lágrimas roxas, fruto da combinação. Dos desenhos fitados em sombra e pó de arroz fino - máscaras. Dos segredos susurrados. Divididos. Cumpliciados. Conquistados. Agora vá à janela. Sinta a brisa. Respire fundo. Feche os olhos. E só imagine as imagens. Só desenhe no ar. Os meus borrões azul e vermelho. De volta ao começo.

domingo, 1 de agosto de 2010

Poema pra quando ela voltar.

Criança moleca bate asas.
Voa longe.
Brinca de ser gente grande.
Brinca longe.
Constrói castelos de areia nevada.
Constrói longe.
Troca a casinha por nova morada.
Troca longe.
Pinta pastel a própria história.
Pinta longe.
Cria saudade do sorriso levado.
Cria perto.

Vai, pequena, ser grande na vida.

sábado, 24 de julho de 2010

diálogo de reis IV

- Sabe..
- Hã?
- Também não gosto de nada disso.
- Nada disso o quê?
- Isso ué.
- Não entendi.
- De distância, saudade.
- Até que é bom.
- (silêncio)
- Pro reencontro, digo.
- (silêncio)
- Isso de saber que se tem.
- Que tal um passeio?
- Como?
- No alto de um morro bem frio.
- Agora?
- É.
- E depois?
- Depois também
- E depois?
- Também.
- E quando acaba?
- Não acaba. Aí onde quero chegar.
- Isso soa familiar.
- (silêncio)
- Podemos ir de helicóptero?
- Que tal balões?
- Só nós dois?
- E de lá vamos pro infinito.
- Impossível.
- Faz o seguinte. A gente se casa.
- Casemos, então.















"Só conheço uma liberdade,
a do pensamento."

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Livre-se asas.

Aconteceu que, seja como for (pois independe da lenda), Dédalo, junto ao seu filho Ícaro, foi preso no labirinto do Minotauro (que já estava morto à essa altura da história), que ele próprio construiu. Então, juntou asas de gaivota e cera do mel de abelhas, e delas fez dois pares de asas pra que ele e seu filho pudessem se salvar. Dédalo lembrou de alertar o menino a não subir tão alto que aproxime-se demais do sol, nem tão baixo que sinta a brisa do mar. Mas, extasiado com a liberdade das penas, Ícaro se esquece dos conselhos do pai e rasga as nuvens rumo ao astro luminoso... Voa tão alto quanto consegue voar! Com a alta temperatura a cera das penas do jovem-alado foi se derretendo, as asas se desmanchando e sua história terminando no fundo da beira do mar. Enquanto Dédalo, entre lágrimas, chegava seguro à costa lamentando a (in)fortuna da sorte de poder voar.


Pintura: "A queda de Ícaro" - óleo s/tela - de JFMachado