Pelo bem que cercado de amor, cerca o amor de bens. Pelo tempo que me foi generoso. Pelos dias que me foram calorosos. Pelos abraços. Pelos carinhos. Pelas noites. Pelos risos. Por ser maior, e ser menor. Por ser imenso... Pela sinceridade. Pela amizade que um dia cultivei. Pela oferenda. Pela troca. Por ser humano. Por ser da trova. Do trevo, da chuva de anis. Pelo verde, pelo amor, por amar, com amor... obrigada.
Penso cada vez mais longe. Vejo cada vez mais longe. Toco cada vez mais longe. Saboreio cada vez mais longe. Respiro cada vez mais longe. Cheiro cada vez mais longe. Ouço cada vez mais longe.
- Olá, como vai? - Eu vou indo, e você tudo bem? - Tudo bem, eu vou indo, correndo, pegar meu lugar no futuro, e você? - Tudo bem, eu vou indo
em busca de um sono tranquilo, quem sabe.. - Quanto tempo! - Pois é, quanto tempo... - Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios, - Qual, não tem de quê. Eu também só ando a cem. - Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí. - Pra semana prometo talvez nos vejamos, quem sabe... - Quanto tempo! - Pois é, quanto tempo... - Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas.. - Eu também tenho algo a dizer, mas me foge a lembrança.. - Por favor telefone eu preciso beber alguma coisa rapidamente. - Pra semana, - O sinal... - Eu procuro você. - Vai abrir, vai abrir.. - Prometo não esqueço.. - Por favor não esqueça, não esqueça.. - Adeus. - Adeus.
Os desenhos fitados de azul e vermelho agora giram. Rodopiam freneticamente. À velocidade da luz. As cores se misturam virando borrões. As linhas se misturam virando nós. Os limites se misturam virando nada. Confusão. Embaraço. Mancha - como aquela da blusa branca preferida que nunca mais quis sair (pouco me importa). Poesia concreta em pintura realista. Vira voz. Vira som. Mas não harmonia. Abstracionismo geométrico sem retas, sem abstração e sem geometria. Lágrimas roxas, fruto da combinação. Dos desenhos fitados em sombra e pó de arroz fino - máscaras. Dos segredos susurrados. Divididos. Cumpliciados. Conquistados. Agora vá à janela. Sinta a brisa. Respire fundo. Feche os olhos. E só imagine as imagens. Só desenhe no ar. Os meus borrões azul e vermelho. De volta ao começo.
- Sabe.. - Hã? - Também não gosto de nada disso. - Nada disso o quê? - Isso ué. - Não entendi. - De distância, saudade. - Até que é bom. - (silêncio) - Pro reencontro, digo. - (silêncio) - Isso de saber que se tem. - Que tal um passeio? - Como? - No alto de um morro bem frio. - Agora? - É. - E depois? - Depois também - E depois? - Também. - E quando acaba? - Não acaba. Aí onde quero chegar. - Isso soa familiar. - (silêncio) - Podemos ir de helicóptero? - Que tal balões? - Só nós dois? - E de lá vamos pro infinito. - Impossível. - Faz o seguinte. A gente se casa. - Casemos, então.
Aconteceu que, seja como for (pois independe da lenda), Dédalo, junto ao seu filho Ícaro, foi preso no labirinto do Minotauro (que já estava morto à essa altura da história), que ele próprio construiu. Então, juntou asas de gaivota e cera do mel de abelhas, e delas fez dois pares de asas pra que ele e seu filho pudessem se salvar. Dédalo lembrou de alertar o menino a não subir tão alto que aproxime-se demais do sol, nem tão baixo que sinta a brisa do mar. Mas, extasiado com a liberdade das penas, Ícaro se esquece dos conselhos do pai e rasga as nuvens rumo ao astro luminoso... Voa tão alto quanto consegue voar! Com a alta temperatura a cera das penas do jovem-alado foi se derretendo, as asas se desmanchando e sua história terminando no fundo da beira do mar. Enquanto Dédalo, entre lágrimas, chegava seguro à costa lamentando a (in)fortuna da sorte de poder voar.
Pintura: "A queda de Ícaro" - óleo s/tela - de JFMachado