sábado, 19 de fevereiro de 2011

Bailarina II - Desmentindo Chico


Bailarina
da perna quebrada,
da saia rasgada,
do cabelo chanel.
Menina
do café requentado,
dos dias nublados,
do sonho e do céu.

Bailarina (continua)
sem Soldado-de-Chumbo...


[quem disse que ela não tem?]

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

tire o seu sorriso do caminho...


chegou correndo, suada, cabelos emaranhados do bater ao vento. respirava ofegante, como se quisesse falar e sugar, ao mesmo tempo, todo o ar do mundo e toda a essência dele. a porta se abriu. estava ali parado, intocável, com uma leve ruga - quase imperceptível - entre os olhos fundos. cara-a-cara com ela. ficou muda. perdeu a voz. e o tempo. as mãos frias e vazias. nada trazia. nada dizia. ele sorriu. e partiu. - você nunca sabe o que quer...

sábado, 29 de janeiro de 2011

e agora... ?



"E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?"


(José - Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

[...]

Em meio a águas turbulentas me sinto observada. Como por alguns anjos bons. Aqui os agradeço. O amor me surpreende a cada esquina, digo amor - digo vida.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

o último diálogo de reis.

- Quanto tempo!
- Pois é, quanto tempo...
- Tudo bem?
- Aham...
- Você disse que estaria por perto.
- Eu tentei.
- Você acha?
- (silêncio)
- Me desculpa, eu não vim te cobrar.
- (silêncio)
- Eu entendo, de verdade.
- Você tinha falado de amor...
- É porque amo.
- (silêncio)
- Tive uma idéia!
- Lá vem...
- Que tal a gente ir pra algum lugar? Vênus, talvez?
- É impossível...
- Não se você tiver do meu lado.
- (risos)
- Você nunca me leva a sério...
- Tá bom...
- Viu?
- E quando a gente volta? Quando acaba?
- Bem...
- Antes você dizia que não acabava nunca.
- (silêncio)
- Tá tudo bem...
- Algumas coisas mudam, afinal. Mas nem todas.
- (silêncio)
- Acaba quando a gente quiser... é aí onde quero chegar!
- (silêncio)
- Faz o seguinte. A gente se liberta.
- Libertemos então.










"
Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós. ."

domingo, 28 de novembro de 2010

segunda falsa ode à Ele.

Pelo bem que cercado de amor, cerca o amor de bens. Pelo tempo que me foi generoso. Pelos dias que me foram calorosos. Pelos abraços. Pelos carinhos. Pelas noites. Pelos risos. Por ser maior, e ser menor. Por ser imenso... Pela sinceridade. Pela amizade que um dia cultivei. Pela oferenda. Pela troca. Por ser humano. Por ser da trova. Do trevo, da chuva de anis. Pelo verde, pelo amor, por amar, com amor... obrigada.




Porque amor pra mim não acaba, transforma.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Calo-me.

Detesto a fúria e os furiosos.
A própria raiva me enraivece.

Disse Paulo:
"Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sob a vossa ira" (Ef. 4:26)

sábado, 30 de outubro de 2010

Quantos lugares ao mesmo tempo?

Penso cada vez mais longe.
Vejo cada vez mais longe.
Toco cada vez mais longe.
Saboreio cada vez mais longe.
Respiro cada vez mais longe.
Cheiro cada vez mais longe.
Ouço cada vez mais longe.

Sinto cada vez mais.




É, a água levou.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Uma história marrom-bombom.

Era uma vez
um menino amarelo
que comeu um cogumelo azul
e desde então
tudo aquilo que ele encostou
ficou verde fluorescente.

Era uma vez
uma menina roxa
que comeu uma flor preta
e desde então
tudo aquilo que ela encostou
ficou laranja metálico.

Em algum 'era uma vez'
o menino amarelo do primeiro parágrafo
esbarrou na menina roxa do segundo
e desde então
tudo ficou rosa bebê.